Qual será o último instante da infância? O último segundo em que olhamos o mundo com sensibilidade e inocência infantis? Qual foi aquele último ano, no qual as perdas e as conquistas se somaram para fazer desaparecer o mundo em que vivíamos? As cores não serão as mesmas, nem os cheiros, nem os sons, nem os sabores... não, nenhuma sensação será a mesma, e Deus sabe como guardaremos todos esses sentimentos em um lugar inesquecível - e indestrutível -dos nossos corações. Aquela pracinha onde brincávamos, a curiosidade cega, a sensação de que o mundo era enorme e que nele tudo nos facinava. A voz de nossa mãe nos repreendendo; sua mão nos dando carinho... Os amigos que descobriam pouco a pouco contigo todos os enigmas do mundo e que inventavam brincadeiras “estúpidas” que pareciam preencher os nossos dias de felicidade... Qual foi o último dia em que a luz bateu daquela maneira na janela do nosso quarto e que nos sentimos crianças, que nos sentimos puros... O último dia em que acreditamos que nunca morreríamos, quando parecia que os dezoito anos nunca chegariam – o mundo dos adultos era um; o nosso, outro… quase incomunicável e desconexo. Qual foi o último dia em que vivemos a ilusão mais verdadeira que teremos?
Hoje olho para trás, sinto minhas recordações emergindo do meu pensamento, onde elas estavam tão longamente trancafiadas: o parque de diversões, Caxias, a voz meu avô, o chá da minha vó, a praia com minha tia, andar de bicicleta com minha prima, pastel com meus pais, festinha de aniversário cheia de docinhos, trabalho de artes (com um monte de lantejoulas e tintas e cola e sujeira), joelhos machucados por brincar de pega-pega, a luz passando pelas cortinas e tornando-se vermelha ao amanhecer no porão (cheio de aranhas) da casa antiga do meu vô, querer jogar canastra e ser novo demais para isso, tomar óleo de fígado de bacalhau, a horta, o cemitério, o cinema (que, talvez continue sendo o único lugar em que meus sentimentos não tenham mudado), meu pai tentando me fazer jogar futebol (belo fracasso!), briga para dormir cedo, minha mãe querendo que eu comesse salada, missas e rosários, churrascos de família cheios de primos, remédio com gosto bom, remédio com gosto ruim, comer areia (no meu caso, sem querer), “revista-de-mulher-pelada”, usar capuz para não “pegar sereno”, fazer birra no supermercado, “mamãe-posso-ir?”, livros só com figuras, brigas com amigos de se pegar no pau, banho de rio, banho de mar, banho de piscina, banho de mangueira, balas Xaxa e 7 Belo, Cavaleiros do Zodíaco, café da manhã todo o dia com um bom Nescau, Chaves, Xuxa (Lua de Crista e tal), álbuns de figurinhas, “Cocota-Assassina”, prédios lindos, "aibotaquiaibotaliosseupezinho!", caminhadas que pareciam longas, Porto Alegre que parecia grande, dentista, médico, raio-x, arrancar dentes de leite, engessar qualquer membro, cortar o cabelo das meninas, morder colegas, minha mãe pisando no cocô de vaca no dia do meu aniversário, quebrar lápis, subir no escorregador e dizer: “adeus vida cruel!”, fingir desmaios, fazer fila, ter aula de religião, achar que a vida era fácil, simples e que tudo daria certo...
Pela terceira vez eu assisto Amarcord de Fellini... recomendo para todos!
Deixo esse post antes de viajar – não revisado, como seria um texto de criança, que diz que revisou, mas que não tem a menor paciência para arrumar qualquer coisa. Estou em clima nostálgico e saudosista (não, não são sinônimos!). E lembro a todos os amigos de que os amo demais! Parte essencial dessas recordações que dão dor por terem passado, mas que – acima disso – fazem lembrar de como vale a pena estar vivo! “There is no point in living if you can’ t feel alive” – et c’est completement vrai!
BOAS FÉRIAS!
GUi, the FiCkLe!
Escrito por às 21h24
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